Quando meus olhos se encontraram com os dele, eu já sentia tudo outra vez.
Toda aquela merda egoísta que aos olhos de qualquer poeta barato e iludido pareceria lindo, mas não... não é nem um pouco lindo. Mania idiota que as pessoas têm de achar algo bonito em sofrimento alheio.
Quando o encontrei, ele já estava totalmente desamparado. Chorava feito criança. estava me esperando fazia horas.
- Achei que você não viria - ele disse.
- O atraso é um charme indispensável.
Tentei continuar me mostrando ser forte, fria, insensível. Durante alguns minutos que pareciam serem horas, creio que consegui aparentar que estava pouco me lixando para as lágrimas dele e todo o resto. Pouco depois, comecei a chorar também... Não aguentei ouvir tudo aquilo. Toda a verdade do que sempre duvidei estampada na minha cara, assim, toda a sinceridade que sempre esperei ouvir jogada em cima de mim no momento mais inesperado. Quando percebi que aquilo ainda mexia comigo, já não sabia se enxugava as minhas lágrimas ou as dele.
Tarde demais, perto demais.
- Não chora assim, dificulta o que vim dizer.
Era o clichê mais fajuto que eu poderia soltar naquele momento. Mas se ele soubesse que os meus clichês nem são tão clichês assim, e que na verdade, eles são tudo o que há de mais puro e sincero em mim, nunca teria me dito coisas tão desagradáveis.
- Eu sinto muito.
Ele sempre sente.
Na verdade é uma grande mentira, quem sente sou eu. Sempre senti.
- Sim, você foi um idiota.
Ele nunca esperou que eu fosse dizer isso. Todas as vezes que ele pedia desculpas dizendo que tinha sido um idiota, eu discordava e dizia para ele não se culpar. Eu era uma idiota quando fazia isso.
- Eu amo você. Sinto saudades. Não sei o que faço.
- De novo? Até quando terei que aguentar isso? Por quanto tempo suportarei você pisando em mim e depois correndo de volta para me ter em seus braços como uma criança burra e indefesa?
- Você é muito instável as vezes.
Sim, eu sei que sou instável, eu sei que sou paradoxal, eu sei que sou orgulhosa.
- Não vai dizer nada? - ele disse, como se estivessemos discutindo algo super polêmico, um típico toma lá, dá cá.
- Você é muito instável sempre.
Que novela, meu querido, que novela... Já tinha dito que sou uma ótima atriz, o difícil é diferenciar quando estou fingindo de quando realmente estou sentindo na pele. Na maioria das vezes estou sentindo na pele e sofrendo calada.
- Fiz a maior besteira de toda a minha vida.
- Sim, você fez, mas tenho certeza que besteiras maiores virão.
Nesse momento tive toda a certeza: consigo ser mais filha da puta do que ele. Consigo ser a pessoa mais filha da puta do mundo.
Ele se calou e, eu quebrei o silêncio.
- Eu te amo.
Ele me olhou esperançoso. Seus olhos brilhavam, toda a nossa trilha sonora de músicas bonitinhas e estúpidas tocavam ao fundo, mas na verdade, sei que era apenas coisa de nosso lado irracional, de nossa mentalidade fértil e ingenua.
- É bom ouvir isso, me conforta. Eu te amo muito. - disse ele, pouco tempo depois.
- Mas eu não quero o seu amor.
Olhei bem no fundo dos olhos dele. Por pouco não vi a sua alma... ou quem sabe até cheguei a ver e agora não estou lembrada.
Ele ficou mudo. Sem ação, sem reação, sem porra nenhuma que a droga da física que eu sempre odiei julgaria como algo totalmente errado.
- Isso é um adeus? - disse ele tentando voltar para si.
- Esse é o nosso último adeus, não ouse voltar. - respondi.
E não satisfeita, disse, para terminar:
- Se algum dia eu disse que iria te esperar, é mentira... eu não sou assim.
E esse foi mais um clichê. O meu último clichê. E talvez o único clichê sem sinceridade dito por mim.
Virei as costas e fui embora sem olhar pra trás. Sim, eu sei que ele chorou. Eu ouvi a sua respiração ofegante, eu senti a dor que ele sentia... eu sentia as lágrimas dele rolarem pelo meu rosto. Mas não voltei. Não mais sofreria.
Dizer o que você sente, as vezes, pode ser muito frustrante.
Se foi real? Não sei, mas no outro dia acordei com uma baita dor de cabeça, e naquele dia eu sequer tinha bebido.
